
Uma Orgia de Ladrões
O neoliberalismo, essa expressão tão usada em nossos tempos, é um daqueles termos ambíguos que resistem a uma definição simples. Mas todo brasileiro sente seu significado na pele: ao lutar para pagar o aluguel que sobe mais rápido que o salário, ao adiar a ida ao médico porque o SUS está lotado ou o plano de saúde ficou inacessível, ao respirar o ar poluído das grandes cidades enquanto as elites discutem “desenvolvimento sustentável” em hotéis de luxo, ou ao ver jovens sem perspectiva serem engolidos pela informalidade, pela violência ou pelo tráfico.
No Brasil, o neoliberalismo não chegou com o sorriso de Jimmy Carter nem ganhou força sob Reagan. Aqui ele se instalou de forma mais crua e seletiva. Chegou com a abertura comercial dos anos 1990, acelerou sob a privatização de estatais, a desregulamentação financeira e a lógica de que o mercado resolveria tudo — enquanto o Estado continuava robusto para proteger interesses de poucos. O resultado não foi o enxugamento do Estado, mas sua captura. O que se viu foi a combinação perversa de discurso liberal com práticas de privilegiados: privatizações que transferiram patrimônio público para grupos privados sem competição real, juros altos que enriquecem rentistas enquanto asfixiam a produção, e uma carga tributária que pesa sobre o consumo e o trabalho, poupando o grande capital.
A “orgia de ladrões” não é metáfora vazia. É a descrição de um sistema em que a corrupção deixou de ser exceção e se tornou método. Escândalos se sucedem com regularidade quase institucional: mensalão, petrolão, caixa dois, desvios em obras públicas, fundos de pensão saqueados, emendas parlamentares transformadas em moeda de troca. De um lado, políticos que prometem “combater a corrupção” e, no poder, reproduzem as mesmas práticas. Do outro, empresários que financiam campanhas e depois recebem contratos, isenções ou regulação favorável. O povo assiste ao espetáculo de delações premiadas, delações seletivas, prisões espetaculares e absolvições silenciosas. A rede de proteção social, já precária, é cortada ou transformada em cabide de empregos e clientelismo, enquanto os mais ricos acumulam em ritmo acelerado — seja via juros, seja via isenções, seja via captura regulatória.
O que se vende como “modernização” muitas vezes é apenas a transferência de risco para baixo e de ganho para cima. Desregulamentação trabalhista que precariza sem criar empregos de qualidade. Abertura comercial sem política industrial coerente. Concessões de infraestrutura que se transformam em monopolios privados protegidos. E, por cima de tudo, um sistema político que se alimenta da própria crise: quanto pior a gestão, maior a demanda por “soluções” que aprofundam o mesmo modelo.
Não se trata de nostálgica defesa de um passado estatista. O Estado brasileiro já mostrou, repetidas vezes, sua capacidade de ser ineficiente, clientelista e capturado. O problema é que o neoliberalismo à brasileira não enfrentou essa captura — ele a sofisticou. Em vez de regras claras, concorrência e accountability, preferiu o casamento entre grandes interesses privados e o aparelho estatal. O resultado é uma sociedade em que a mobilidade social estagna, a violência cresce nas periferias e a confiança nas instituições despenca.
Uma orgia de ladrões não precisa de conspiração grandiosa. Basta um sistema de incentivos em que o custo de roubar ou privilegiar os próprios seja baixo, e o custo de reformar seja alto. Enquanto a política brasileira continuar girando em torno da distribuição de cargos, emendas e favoritismos — e não da construção de regras estáveis que protejam o cidadão comum — o espetáculo se repete. Os nomes mudam, os partidos alternam no poder, mas a lógica permanece: o público paga a conta, e os bem-posicionados celebram.
O Brasil não precisa de mais um ciclo de promessas messiânicas nem de mais um pacote de medidas cosméticas. Precisa de algo mais simples e mais difícil: instituições que tornem a captura cara, a corrupção arriscada e a prestacão de contas inevitável. Até lá, a orgia continua.