
Soberania, mas, qual? Uma crítica ao debate que simplifica o complexo
O texto “Soberania, mas, qual?”, publicado em 29 de setembro de 2026, acerta o diagnóstico central: a soberania nacional não se resume a bandeiras, discursos anti-imperialistas ou gestos diplomáticos. Ela tem duas faces — a externa, da capacidade de negociar interdependências sem se tornar refém; e a interna, do monopólio efetivo do Estado sobre o território e a população. O autor tem razão ao lembrar que milhões de brasileiros vivem sob o poder de paralelo de organizações criminosas e milícias, e que exportar commodities sem agregar valor é uma escolha estratégica questionável. O problema começa quando a análise desliza da lucidez para uma narrativa seletiva e, em alguns pontos, incompleta.
A dependência chinesa: real, mas não exclusiva
É inegável que a China concentrou, nos primeiros oito meses de 2026, cerca de 31% das exportações e 26% das importações brasileiras. Essa assimetria gera vulnerabilidade. Qualquer restrição política, logística ou sanitária em Pequim afeta imediatamente a balança comercial, o câmbio e a arrecadação. O Porto de Chancay e o projeto de corredor bioceânico ilustram bem como a infraestrutura cria vínculos de longo prazo — e vínculos, como o texto corretamente observa, transportam também influência.
Contudo, o artigo trata a China quase como o único vetor de risco. Omitem-se, por exemplo, a dependência estrutural de fertilizantes russos e bielorrussos, a exposição do agronegócio a oscilações de política comercial dos Estados Unidos e a fragilidade das cadeias de semicondutores e tecnologia de ponta, ainda dominadas por poucos atores. Concentração de mercado é problema; transformá-la em monocausalidade é simplificação. Chile e Peru também enviam mais de 30% de suas exportações à China — e nem por isso abandonaram a diversificação ou a busca de outros parceiros. O Brasil poderia fazer o mesmo com mais vigor, sem transformar a relação sino-brasileira em ameaça existencial.
A crítica à baixa agregação de valor é justa. Exportar minério, soja e petróleo em estado bruto significa transferir renda potencial para fora. No entanto, o texto subestima as restrições reais: custo de capital, qualidade da educação técnica, instabilidade regulatória e carga tributária sobre a indústria. Sem resolver esses gargalos internos, o discurso de “industrializar as commodities” permanece retórica. Além disso, tratar o petróleo como inconsistente com a transição energética ignora a realidade: o hidrocarboneto continuará relevante por décadas, e o Brasil, com pré-sal de baixo custo de extração e intensidade de carbono relativamente favorável, tem vantagens competitivas que outros produtores não possuem. Descartá-lo prematuramente seria tão dogmático quanto tratá-lo como “o grande ativo do futuro”.
A soberania interna: o ponto mais forte e o mais negligenciado
Aqui o texto acerta em cheio. Quando milícias e facções controlam distribuição de gás, internet, transporte e até o direito de circular, o Estado deixa de ser soberano em partes significativas do território. Isso não é apenas “problema de segurança pública”; é erosão do contrato social. A capacidade de o cidadão votar, trabalhar e se expressar sem autorização de um poder paralelo é condição prévia de qualquer soberania digna desse nome.
O que falta é a conexão política. O autor observa corretamente que candidatos de diferentes matizes disputam o título de “guardiões da soberania”. Porém, evita perguntar por que, décadas após o reconhecimento do problema, a presença do Estado em favelas e periferias continua residual. A resposta não está só na falta de vontade; está na captura de políticas públicas por interesses clientelistas, na ineficiência da Justiça, na corrupção em segmentos das forças de segurança e na ausência de uma estratégia nacional de longo prazo que combine repressão seletiva com presença civil permanente (escolas, postos de saúde, regularização fundiária, emprego formal). Sem isso, a soberania interna continua sendo discurso de campanha.
O paradoxo e a falsa dicotomia
O texto identifica bem o paradoxo contemporâneo: nunca as economias foram tão interdependentes e nunca se falou tanto em autonomia estratégica. Brexit, revisão do USMCA e tensões comerciais mostram que integração não é irreversível. O erro é apresentar “soberania como capacidade de escolha” como se bastasse enunciá-la. Capacidade de escolha exige instrumentos: Estado regulador competente, sistema de inovação, educação de qualidade, infraestrutura logística eficiente e, sobretudo, estabilidade institucional. Sem esses pré-requisitos, a “escolha” vira mera declaração.
Há, ainda, uma tensão não resolvida. O autor rejeita o isolacionismo (corretamente), mas não enfrenta o custo político de uma inserção internacional mais sofisticada. Diversificar mercados, forçar agregação de valor e recuperar o monopólio da força em território nacional exige confrontar interesses domésticos consolidados — do agronegócio que prefere a rentabilidade imediata da commodity à indústria que vive de proteção tarifária e à máquina política que lucra com a precariedade urbana. Sem nomear esses conflitos, o apelo à soberania permanece abstrato.
Conclusão: a pergunta certa, a resposta incompleta
“Soberania, mas, qual?” é uma provocação necessária. Ela desmonta o uso oportunista do tema e recupera a dimensão territorial e social da soberania. Seu maior mérito é lembrar que o Estado brasileiro precisa ser soberano não só em Brasília e nas embaixadas, mas em cada favela e cada corredor logístico. Seu maior limite é a seletividade: a China aparece como risco quase único, a transição energética é tratada de forma unilateral e as causas estruturais da perda de soberania interna ficam em segundo plano.
Antes de os candidatos responderem “qual soberania?”, talvez seja preciso perguntar outra coisa: que capacidade institucional, que coalizão política e que reforma de Estado serão necessárias para que a soberania deixe de ser slogan e se torne realidade cotidiana. Sem isso, o debate continuará girando em torno de bandeiras — enquanto o poder paralelo e a dependência seletiva seguem intactos.