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Segurança pública: quando a ideologia não consegue
Segurança pública: quando a ideologia não consegue

Segurança pública: quando a ideologia não consegue responder à realidade

Há uma pergunta que a esquerda latino-americana terá de enfrentar, goste ou não: por que uma parcela crescente da população deixou de confiar em suas respostas para o problema da segurança pública?

A questão não pode ser reduzida a propaganda eleitoral, influência estrangeira, redes sociais ou à suposta manipulação das massas. A insegurança é uma experiência concreta. Ela está no assalto no caminho para casa, no comércio que fecha mais cedo, na família que evita determinadas regiões, no trabalhador que muda sua rotina por medo e, em casos extremos, na expulsão de comunidades inteiras por organizações criminosas.

O problema começa quando uma parte do debate político transforma o criminoso em objeto quase exclusivo de explicações sociológicas e transforma a vítima em personagem secundário.

Isso não significa negar que pobreza, desigualdade, abandono escolar, desemprego, desestruturação familiar e ausência do Estado possam contribuir para a criminalidade. Evidentemente contribuem. O erro está em transformar essas condições em uma explicação suficiente para o crime — ou, pior, em uma espécie de absolvição moral automática de quem decide cometer violência.

Uma sociedade madura precisa ser capaz de sustentar duas ideias simultaneamente: as causas sociais da criminalidade devem ser enfrentadas e o criminoso deve responder pelos crimes que comete.

Uma coisa não elimina a outra.

A teoria encontra a realidade nas ruas

Durante décadas, setores da esquerda desenvolveram interpretações do crime fortemente associadas às condições estruturais da sociedade. Nessa perspectiva, desigualdade, exclusão e relações de poder são fundamentais para compreender por que determinados grupos apresentam maior exposição à criminalidade.

Há valor explicativo nessa abordagem. O problema aparece quando ela passa da explicação para a substituição da responsabilidade individual.

Se o criminoso é apresentado primordialmente como produto das circunstâncias sociais, corre-se o risco de produzir uma inversão moral: o agressor passa a ser interpretado como vítima estrutural, enquanto a vítima concreta desaparece da equação.

É nesse ponto que o discurso político entra em choque com a experiência cotidiana.

Para uma família que teve um filho assassinado, pouco importa se o criminoso foi formado em um ambiente de pobreza. Para uma mulher violentada, a existência de desigualdade social não diminui a gravidade do estupro. Para uma comunidade expulsa de suas casas por uma facção, uma explicação sociológica sobre as origens do crime não devolve a casa, a escola, a igreja ou o posto de saúde.

A explicação das causas é necessária. Mas ela não substitui a proteção da sociedade.

A população não vive em um seminário acadêmico

Os dados ajudam a compreender por que a segurança se tornou uma questão política tão importante.

O Latinobarómetro 2024 registrou que 19,1% dos latino-americanos apontaram criminalidade e segurança como o principal problema de seus países, ligeiramente acima de economia e finanças, com 18,1%. Há diferenças enormes entre os países: no Equador, 48,6% apontaram criminalidade e segurança; no Chile, 40,9%; no Peru, 32,8%; no Uruguai, 35,3%. No Brasil, o percentual foi de 9,7%.

É importante observar que o próprio Latinobarómetro faz uma ressalva metodológica: a percepção da criminalidade mede também o medo da população e não necessariamente acompanha de maneira direta as taxas objetivas de homicídio.

Mas justamente aí está uma questão que os partidos não podem ignorar.

O medo também é um fato político.

O cidadão não precisa consultar uma estatística criminal antes de decidir se está com medo. Ele simplesmente deixa de sair à noite, instala grades, muda os filhos de escola, evita determinados bairros ou altera o caminho para o trabalho.

Uma política de segurança que não consegue produzir sensação de proteção perde contato com uma dimensão essencial da vida real.

O caso de Uiraponga deveria provocar vergonha institucional

O caso de Uiraponga, no Ceará, é particularmente eloquente.

Em 2025, cerca de 300 famílias — aproximadamente 2 mil pessoas — deixaram suas casas após ameaças relacionadas à disputa entre facções criminosas. O posto de saúde foi fechado, alunos foram transferidos e o distrito praticamente se transformou em um local fantasma.

Segundo reportagem publicada posteriormente, a segurança local chegou a ser realizada com apenas uma viatura e nove policiais, embora o governo estadual afirmasse que a situação estava pacificada.

Esse episódio deveria ser suficiente para colocar qualquer discussão ideológica em segundo plano.

Quando criminosos conseguem determinar quem pode ou não permanecer em uma determinada comunidade, o problema já não é simplesmente criminalidade.

É perda de soberania do Estado.

E quando famílias são obrigadas a abandonar suas casas porque uma organização criminosa decidiu exercer poder territorial, a prioridade deveria ser inequívoca: recuperar o território, proteger os moradores e restabelecer o monopólio estatal da força.

Não há teoria sociológica que possa substituir essa obrigação.

Penas mais duras: o debate precisa ser mais sério

Outro ponto frequentemente utilizado no debate político é o endurecimento das penas.

Aqui também é necessário abandonar os slogans.

Em maio de 2026, a Câmara dos Deputados aprovou o PL 3984/25, aumentando as penas para estupro, assédio sexual e determinadas condutas relacionadas à violência sexual. Pelo texto aprovado, a pena básica do estupro passou de 6 a 10 anos para 8 a 12 anos de reclusão. A proposta também estabeleceu aumentos para circunstâncias específicas. O projeto ainda depende da tramitação no Senado.

O debate legítimo não é simplesmente "pena maior funciona" contra "pena maior não funciona".

A pergunta correta é mais ampla:

Qual é a combinação de prevenção, investigação, policiamento, julgamento, execução penal e ressocialização capaz de reduzir efetivamente a criminalidade?

Penas severas sem investigação eficiente podem produzir pouco resultado.

Investigação eficiente sem capacidade prisional também pode fracassar.

Policiamento ostensivo sem inteligência pode apenas deslocar determinados problemas.

Programas sociais sem repressão efetiva podem deixar comunidades vulneráveis enquanto organizações criminosas ocupam o espaço abandonado pelo Estado.

A segurança pública exige todas essas dimensões simultaneamente.

O erro de transformar polícia em problema

Uma parcela do debate progressista também apresenta uma desconfiança estrutural em relação às instituições policiais. Abusos policiais existem e devem ser investigados. Mortes provocadas por agentes do Estado precisam ser apuradas. Corrupção policial deve ser combatida.

Mas existe uma diferença fundamental entre controlar o poder policial e deslegitimar a polícia como instrumento legítimo do Estado.

Uma sociedade que deseja combater organizações criminosas precisa de polícia eficiente, equipada, treinada, submetida à lei e dotada de inteligência.

Não é possível construir segurança pública simplesmente retirando instrumentos das forças de segurança e esperando que organizações criminosas voluntariamente respeitem os limites institucionais.

O Estado precisa ser mais forte que o crime — e, ao mesmo tempo, permanecer submetido à Constituição.

Essas duas exigências não são contraditórias.

O cidadão comum não quer uma guerra ideológica

Há ainda uma dimensão política que merece atenção.

O trabalhador que teme ser assaltado não está necessariamente interessado em uma disputa entre "progressistas" e "conservadores". Ele quer voltar para casa.

A mãe que teme que o filho seja morto na saída da escola não está discutindo teoria criminológica. Ela quer que o filho esteja vivo.

O comerciante ameaçado por uma facção não está preocupado com seminários universitários sobre estruturas sociais. Ele quer poder abrir sua loja sem pagar tributo a criminosos.

É justamente nesse ponto que discursos políticos excessivamente abstratos podem fracassar.

Quando a população pede segurança, oferecer apenas explicações sobre as causas da violência é insuficiente.

É preciso apresentar resultados.

A esquerda não precisa abandonar políticas sociais — precisa abandonar respostas incompletas

Há uma conclusão importante que não deveria ser confundida com uma defesa automática da direita.

Combater a criminalidade não significa simplesmente defender encarceramento em massa, aumentar penas indefinidamente ou conceder carta branca às forças policiais.

Também não existe evidência de que todo problema de segurança possa ser resolvido exclusivamente com repressão.

Educação, urbanização, oportunidades econômicas, prevenção, tratamento de dependência química, políticas para crianças e adolescentes vulneráveis e redução da desigualdade podem fazer parte de uma estratégia de longo prazo.

Mas política de longo prazo não pode significar abandono da segurança no presente.

A esquerda latino-americana enfrenta, portanto, um dilema próprio: como defender suas políticas sociais sem permitir que a explicação social do crime seja confundida com tolerância ao criminoso?

Essa é uma distinção fundamental.

Uma coisa é perguntar por que alguém se tornou criminoso.

Outra é perguntar o que o Estado deve fazer quando esse indivíduo estupra, mata, rouba, sequestra ou expulsa uma família de sua casa.

As duas perguntas são legítimas.

Mas somente a segunda protege imediatamente a vítima.

O problema não é ser de esquerda ou de direita

No fundo, talvez a questão mais importante seja menos ideológica do que parece.

Governos de esquerda podem combater o crime.

Governos de direita também podem fracassar no combate ao crime.

Não existe fórmula partidária automática para segurança pública.

O que existe são políticas que precisam ser avaliadas por resultados: homicídios, roubos, estupros, reincidência, elucidação de crimes, controle territorial, recuperação de áreas dominadas por facções e capacidade do Estado de proteger seus cidadãos.

É nesse terreno que o debate deveria acontecer.

A esquerda que quiser continuar governando precisa compreender que a população não aceita mais que segurança pública seja tratada como uma questão secundária ou como simples consequência da desigualdade.

E a direita que promete uma resposta exclusivamente repressiva também precisará demonstrar que suas políticas conseguem produzir segurança sustentável dentro dos limites da lei.

No fim, o cidadão não deveria ser obrigado a escolher entre um Estado que explica o crime e um Estado que combate o crime.

Ele precisa de um Estado que faça as duas coisas.

Que compreenda as causas da violência, mas não abandone suas vítimas.

Que investigue abusos policiais, mas não desarme simbolicamente quem combate o crime.

Que invista em prevenção, mas não deixe criminosos ocuparem o espaço do poder público.

E, sobretudo, que compreenda uma verdade elementar que qualquer teoria política deveria respeitar:

o direito à segurança não é um privilégio ideológico. É um direito do cidadão.

Purifique se de todos os preconceitos que te amontoaram em tua mente; despojado das tuas ideias enganadoras, de suas raízes, malignas.