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Quando os guardiões da democracia se tornam seu ma
Quando os guardiões da democracia se tornam seu ma

Quando os guardiões da democracia se tornam seu maior risco

A revista britânica *The Economist* publicou, em 10 de setembro de 2026, um artigo cujo título já diz quase tudo: “When the defenders of democracy turn their backs on it instead” — “Quando os defensores da democracia viram as costas para ela”. O texto não é uma opinião isolada de colunista inflamado. É a análise fria de uma publicação que, há um ano, apontava o Brasil como exemplo de maturidade institucional em contraste com os Estados Unidos. Agora, o tom é de alarme. E com razão.

O Supremo Tribunal Federal que, em 2022 e nos anos seguintes, impediu tentativas de subversão eleitoral e condenou Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão, ocupa hoje o centro de um escândalo de corrupção descrito pela revista como “feio e em constante expansão”. O caso envolve o Banco Master e as relações entre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, apontado como um dos maiores fraudadores do país. Quando as conexões vieram à tona, a reação interna do tribunal foi reveladora: o presidente Edson Fachin sugeriu um código de ética com declaração de rendimentos externos. Moraes ridicularizou a proposta.

Pior: em 3 de setembro, Moraes pediu a investigação do ministro André Mendonça — relator do caso — por abuso de autoridade e motivação política, depois que Mendonça autorizou a divulgação de mensagens entre Vorcaro e o próprio Moraes. A *Economist* reconhece que Mendonça carrega um histórico problemático (o dossiê contra adversários quando era ministro da Justiça de Bolsonaro). Mas considera as manobras de autoproteção de Moraes ainda mais graves. O diagnóstico é devastador: a disfunção no Judiciário fortalece aliados de Bolsonaro no Congresso, que já prometem impeachment de ministros e anistia ao ex-presidente após as eleições de 2026.

A ironia é cruel. A sociedade tolerou excessos de Moraes no inquérito das fake news e no processo contra Bolsonaro porque a ameaça parecia maior. Agora, o mesmo ministro se tornou o símbolo de um tribunal que age como se estivesse acima das regras que deveria defender. Equívocos processuais e tentativas de se blindar podem, inclusive, justificar o arquivamento da investigação do Banco Master — beneficiando dezenas de políticos com vínculos com Vorcaro, entre eles Flávio Bolsonaro, principal nome da direita para 2026. Mensagens de áudio vazadas em maio desmentiram a versão do senador de que nunca havia conhecido o banqueiro.

A *Economist* conclui com uma frase que deveria ecoar nos corredores do STF e do Senado: “A maior perdedora seria a democracia brasileira”. Os brasileiros já estão cansados dos ciclos de corrupção que atingem a classe política. Costumavam confiar no Supremo, que mandou dezenas de políticos para a prisão. Essa confiança se desgasta. A tragédia, segundo a revista, é que a corrupção no coração das instituições pode minar a fé na democracia mais do que Bolsonaro jamais conseguiu.

Enquanto isso, no plano político, a pressão cresce. No domingo, 13 de setembro, manifestantes em Macapá — reduto eleitoral de Davi Alcolumbre — gritaram “Fora Alcolumbre” e “Fora Moraes”. Vestidos de verde e amarelo, cobraram o presidente do Senado a pautar os pedidos de impeachment do ministro. Deputados como Nikolas Ferreira e Zé Trovão foram diretos: “Não seja um covarde”. A proposta de estabelecer prazo para análise de denúncias contra ministros do STF é o mínimo de responsabilidade institucional. Manter denúncias paradas indefinidamente não é neutralidade; é proteção.

O quadro é claro. Um tribunal que se apresentou como salvaguarda da democracia agora alimenta a narrativa de que as instituições são seletivas e impunes. Um Congresso que hesita em processar ministros reforça a percepção de que o sistema se protege a si mesmo. E uma opinião pública que já desconfia de todos os poderes vê, mais uma vez, a corrupção se instalando no centro do Estado.

A *Economist* não inventou o escândalo. Apenas descreveu, com a clareza que a imprensa brasileira muitas vezes evita, o risco real: quando os defensores da democracia viram as costas para ela, o que resta não é proteção institucional. É erosão. E erosão, uma vez iniciada, raramente para por vontade própria.

 

Purifique se de todos os preconceitos que te amontoaram em tua mente; despojado das tuas ideias enganadoras, de suas raízes, malignas.