Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese
Partilhe esta Página

EM BREVE         



Total de visitas: 2282
quando a guerra é tratada como espetáculo
quando a guerra é tratada como espetáculo

Ben-Gvir: quando a guerra é tratada como espetáculo

Um trecho de um programa de debates da televisão israelense envolvendo o ministro Itamar Ben-Gvir voltou a chamar atenção pela maneira descontraída com que participantes discutiram uma questão de extrema gravidade: o possível uso de armas nucleares em um conflito contra o Irã.

A discussão causa impacto não apenas pelo conteúdo da pergunta, mas pelo tom adotado por alguns dos participantes. Em meio a risadas, comentários irônicos e interrupções, surge a referência a uma arma nuclear apresentada de maneira simplificada como capaz de matar muitas pessoas sem necessariamente destruir os edifícios da mesma forma que uma explosão convencional de grande escala.

Independentemente da intenção original do comentário, a cena levanta uma questão incômoda: o que acontece quando a possibilidade de morte em massa passa a ser discutida como entretenimento político?

A discussão sobre a bomba de nêutrons

Durante o painel, um dos participantes pergunta por que Israel não estaria utilizando aquilo que chama de "bomba de nêutrons".

A caracterização apresentada no programa — de uma arma que mataria pessoas, mas preservaria prédios — é uma simplificação. Uma bomba de nêutrons é uma arma nuclear de radiação reforçada e não pode ser reduzida à ideia de uma arma que simplesmente elimina seres humanos enquanto deixa intacta a infraestrutura.

Ainda assim, o aspecto mais perturbador da cena talvez não esteja na precisão técnica da descrição.

Está no fato de que uma arma nuclear, capaz de provocar mortes em grande escala, aparece inserida em uma conversa marcada por humor e descontração.

Em qualquer contexto, discutir a possibilidade de utilizar uma arma desse tipo deveria exigir extrema seriedade, justamente porque suas consequências ultrapassariam os limites de um campo de batalha.

A posição de Itamar Ben-Gvir

O ministro Itamar Ben-Gvir é uma das figuras mais controversas da política israelense contemporânea e possui uma longa trajetória associada à direita nacionalista israelense.

No trecho em questão, sua posição sobre o Irã é apresentada de forma direta: Israel deveria eliminar o regime iraniano, considerado por ele um regime terrorista.

Essa declaração precisa ser entendida dentro do contexto de décadas de hostilidade entre Israel e a República Islâmica do Irã.

O problema surge quando a linguagem política deixa de distinguir entre um governo, suas estruturas militares e a população civil submetida àquele governo.

A destruição de um regime pode ser apresentada como objetivo político. Mas, quando essa retórica é combinada com discussões sobre armas capazes de produzir mortes em massa, a fronteira entre destruir uma capacidade militar e aceitar enormes perdas civis torna-se uma questão fundamental.

A religião como instrumento de interpretação política

O texto original que acompanha o vídeo utiliza passagens do Antigo Testamento, particularmente dos livros de Obadias e Zacarias, para interpretar a discussão contemporânea.

Em Obadias aparece a conhecida imagem da casa de Jacó como fogo e da casa de Esaú como palha. O texto está relacionado ao conflito tradicional entre Jacó e Esaú e, em seu contexto histórico e literário, à relação entre Israel/Judá e Edom.

Zacarias também utiliza imagens de conflito e destruição ao descrever acontecimentos associados a Jerusalém e às nações.

Essas passagens possuem importância religiosa e histórica, mas sua utilização para interpretar acontecimentos políticos modernos exige cuidado.

Não é correto transformar automaticamente uma passagem bíblica antiga em uma justificativa para a política militar de um Estado contemporâneo. Também não é correto concluir que todos os judeus compartilham uma determinada interpretação desses textos.

O judaísmo possui inúmeras tradições, correntes e interpretações. Judeus religiosos e seculares podem ter posições completamente diferentes sobre nacionalismo, guerra, Estado de Israel e política externa.

A questão mais interessante, portanto, não é demonizar uma religião inteira, mas investigar como determinados grupos políticos utilizam símbolos, narrativas e textos religiosos para construir uma visão de mundo contemporânea.

Quando o inimigo deixa de ser humano

Existe, porém, um problema mais amplo na linguagem empregada durante guerras.

Ao longo da história, governos e movimentos políticos frequentemente recorreram à desumanização do adversário para tornar aceitáveis ações que, em circunstâncias normais, seriam consideradas moralmente intoleráveis.

O processo começa com a transformação do adversário em uma ameaça absoluta.

Depois, a população do outro lado passa a ser vista como parte indistinguível dessa ameaça.

Finalmente, a morte de civis pode ser tratada como consequência inevitável ou até mesmo como motivo de comemoração.

É nesse ponto que o debate sobre armas nucleares se torna particularmente preocupante.

Uma arma capaz de matar milhares ou milhões de pessoas não deveria ser discutida como se fosse apenas mais uma ferramenta militar. O número de mortos não pode ser transformado em uma estatística abstrata.

Cada número representa pessoas.

A linguagem também importa

Outro elemento que chama atenção no vídeo é o idioma utilizado pelos participantes.

O debate ocorre em hebraico, naturalmente, porque se trata de um programa israelense dirigido ao público israelense.

Entretanto, transformar o hebraico em uma suposta "língua do Diabo", como faz o texto editorial que acompanha o material, desloca a discussão para uma acusação contra um povo e uma tradição cultural inteira.

O hebraico é uma língua semítica com uma história milenar e uma importante tradição literária e religiosa. A língua utilizada por uma pessoa não determina sua moralidade, suas convicções políticas ou suas intenções.

O foco deveria permanecer no conteúdo das declarações.

Se alguém defende uma determinada política militar, essa política deve ser examinada e criticada por aquilo que propõe — não pela língua que utiliza ou pela religião à qual pertence.

O perigo da normalização

Talvez o aspecto mais importante do episódio seja justamente a normalização de determinados temas.

Falar sobre armas nucleares não é, por si só, uma defesa de seu uso. Um participante pode estar provocando, fazendo humor, expressando frustração ou discutindo uma possibilidade hipotética.

Mas existe uma diferença entre discutir a existência de uma arma e tratar sua capacidade de matar pessoas como motivo de diversão.

Em tempos de guerra, essa diferença se torna ainda mais importante.

A linguagem utilizada por políticos, jornalistas e comentaristas ajuda a definir os limites do que uma sociedade considera aceitável.

Quando a morte de populações civis é transformada em piada, o problema não está apenas na piada. Está na possibilidade de que, gradualmente, a própria vida humana seja retirada do centro da discussão.

Israel, Irã e o risco da escalada

O conflito entre Israel e Irã envolve questões estratégicas, militares e geopolíticas muito maiores do que qualquer programa de televisão.

Israel considera o programa nuclear e as capacidades militares iranianas uma ameaça estratégica. O Irã, por sua vez, mantém uma postura de forte oposição a Israel e apoia organizações armadas hostis ao Estado israelense.

Esse ambiente produz uma dinâmica perigosa.

Cada lado apresenta suas próprias ações como necessárias para sua sobrevivência e as ações do adversário como prova de que uma resposta ainda mais forte é necessária.

É assim que conflitos podem entrar em ciclos de escalada.

Quando, além disso, aparece a possibilidade de armas nucleares, a margem para erro diminui drasticamente.

Uma discussão que merece ser levada a sério

O episódio do Channel 14 pode ser analisado de diferentes maneiras. Pode ser visto como provocação televisiva, como manifestação de uma corrente política radical ou simplesmente como parte do estilo confrontacional de determinados programas de debate.

Mas uma coisa permanece relevante: a discussão sobre armas capazes de produzir mortes em massa deveria ser tratada com seriedade proporcional às suas consequências.

Também é necessário separar três coisas que frequentemente são misturadas no debate público: a crítica às políticas do governo israelense, a crítica ao nacionalismo ou ao sionismo e a hostilidade contra judeus enquanto grupo religioso ou étnico.

Criticar governos e ideologias políticas é legítimo. Transformar uma população inteira em uma entidade demoníaca é outra coisa.

A melhor crítica é aquela que não precisa recorrer à desumanização para demonstrar seu ponto.

No fim, a pergunta mais importante provocada pelo episódio não é qual povo possui a religião certa ou qual idioma seria supostamente "demoníaco".

A pergunta é muito mais simples e, talvez por isso, muito mais difícil:

o que acontece com uma sociedade quando a possibilidade de matar milhões de pessoas começa a ser discutida como uma piada?

Essa é uma pergunta que merece ser feita independentemente de quem esteja sentado diante das câmeras — israelenses, iranianos, americanos, russos ou qualquer outro povo envolvido em uma guerra.

Purifique se de todos os preconceitos que te amontoaram em tua mente; despojado das tuas ideias enganadoras, de suas raízes, malignas.