
Para derrotar o Hamas, Israel precisa proteger os civis de Gaza
A estratégia militar predominantemente centrada em operações de grande escala em Gaza, adotada desde outubro de 2023, produziu resultados limitados no enfraquecimento estrutural do Hamas e custos elevados em vidas civis, destruição de infraestrutura e isolamento internacional de Israel. Uma abordagem alternativa, baseada em doutrinas de contrainsurgência desenvolvidas nas últimas décadas, sugere que a proteção da população civil deve ser tratada como objetivo central, e não como efeito colateral.
A doutrina conhecida como Shape-Clear-Hold-Build-Transition (ou variantes como Clear-Hold-Build) foi aplicada com graus variáveis de sucesso em conflitos como o Iraque (sob o general David Petraeus no período do *surge* de 2007-2008). Em essência, ela propõe:
1. Moldar o ambiente operacional com inteligência, parcerias locais e preparação.
2. Eliminar ou neutralizar elementos armados hostis em áreas específicas.
3. Manter o controle dessas áreas com presença de segurança permanente para impedir o retorno dos grupos armados.
4. Construir governança funcional, serviços essenciais, oportunidades econômicas e resiliência comunitária.
5. Transferir gradualmente a responsabilidade para autoridades locais capazes de sustentar a estabilidade.
O princípio estratégico mais importante dessa abordagem é a proteção da população civil. Sem ela, as forças de segurança perdem legitimidade, a população continua dependente do grupo armado e a insurgência se regenera. Em Gaza, a campanha militar israelense deslocou a quase totalidade da população para zonas superlotadas, com colapso de saneamento, eletricidade, água, alimentos, saúde e educação. Estimativas apontam dezenas de milhares de mortes de civis palestinos, destruição de grande parte do parque habitacional e ocupação de parcelas significativas do território. Em vez de separar o Hamas da população, a dinâmica atual manteve a organização infiltrada entre civis, permitindo o uso continuado de escudos humanos e a preservação de redes de financiamento e recrutamento.
Israel abandonou, em fases iniciais da guerra, a prática anterior de avisos prévios a civis antes de ataques aéreos contra alvos que misturavam militantes e não combatentes. Essa mudança contribuiu para o elevado número de baixas civis e para a condenação internacional, ao mesmo tempo em que reforçou a dependência da população em relação ao Hamas.
Ainda é possível reorientar a estratégia. Em vez de buscar a “vitória absoluta” apenas pela força militar, o foco poderia se deslocar para a criação de zonas de segurança limitadas — “ilhas” onde civis estivessem protegidos tanto de operações das Forças de Defesa de Israel quanto do controle do Hamas. Nessas áreas, forças de segurança (potencialmente com supervisão internacional) e um corpo de governança civil tecnocrático poderiam fornecer abrigo, alimentação, água, saneamento, saúde e serviços básicos. Iniciativas já existentes de organizações israelenses e palestinas que criaram refúgios autogeridos para deslocados demonstram, em escala reduzida, que é possível oferecer serviços essenciais sem interferência de grupos armados.
Essa lógica se assemelha à “estratégia da mancha de tinta”: zonas seguras se expandem gradualmente à medida que a segurança, a governança e a reconstrução se consolidam. Para que isso funcione, o Hamas não precisaria se desarmar de imediato em toda a Faixa; bastaria que se retirasse de áreas delimitadas, em troca de retirada israelense simultânea de zonas comparáveis. A supervisão de atores externos, incluindo os Estados Unidos, seria essencial para garantir a sequentialidade e reduzir incentivos à sabotagem.
O atual impasse em torno de propostas de desarmamento do Hamas e retirada israelense ilustra o problema clássico de quem age primeiro. Um campo de testes limitado — zonas de segurança sob proteção de forças de estabilização e administração civil — poderia quebrar essa paralisia e começar a reconstruir alguma legitimidade.
Nenhuma estratégia de contrainsurgência é garantia de sucesso. O Hamas mantém capacidade de coerção, redes subterrâneas e apoio ideológico. A população de Gaza carrega traumas profundos e desconfiança. Israel enfrenta pressões domésticas por resultados rápidos e segurança absoluta. Ainda assim, a evidência histórica de conflitos urbanos prolongados indica que a proteção deliberada de civis e a criação de alternativas de governança são condições necessárias — embora não suficientes — para enfraquecer o controle de um grupo armado sobre a população.
A prioridade deveria ser reduzir o dano aos não combatentes, garantir acesso a serviços essenciais e separar progressivamente o Hamas da população civil. Sem isso, ciclos de violência tendem a se perpetuar, independentemente de quem declare vitória no curto prazo. afinal de contas o governo israelense quer derrotar o Hamas ou fazer uma limpeza étnica dos palestinos?