
Os queridinhos do Brasil estão com o rabo preso
Enquanto a campanha de 2026 se aquece e as pesquisas apontam os mesmos de sempre como favoritos, a realidade teima em lembrar que, neste país, quase ninguém chega longe com as mãos limpas. Os dois lados que disputam o trono — de um lado o clã Bolsonaro, representado agora por Flávio; do outro o petismo ancorado em Lula e protegido por Alexandre de Moraes — estão, cada um à sua maneira, com o rabo bem preso no mesmo novelo: o Caso Master.
Comece pelo lado de Flávio Bolsonaro. O ministro André Mendonça autorizou a abertura de inquérito contra o senador por suspeitas ligadas ao financiamento do filme *Dark Horse*, a cinebiografia do pai. A Polícia Federal investiga possíveis lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Segundo o que já vazou, Flávio teria pedido mais de R$ 130 milhões a Daniel Vorcaro, o dono do Master. Mais de R$ 61 milhões teriam de fato chegado à produção, passando por fundos no exterior. Parte do dinheiro, ainda segundo a apuração, pode ter custeado despesas de Eduardo Bolsonaro fora do Brasil. Flávio, em Roraima, nega tudo e diz que foi “tudo privado”. Claro. Sempre é “tudo privado” até as planilhas e a colaboração premiada de operadores financeiros começarem a falar.
Agora olhe para o outro lado. Lula deve demais a Alexandre de Moraes para simplesmente “largar a mão” do ministro. Foram decisões do TSE que encurtaram o tempo de TV do adversário, ações que levaram à inelegibilidade e à prisão de Jair Bolsonaro, e uma atuação constante que limpou o caminho para a reeleição petista. Moraes ocupou o vácuo deixado pela esquerda no auge do bolsonarismo e, em troca, acumulou poder. Agora o mesmo Moraes aparece nas mensagens de Vorcaro. O relatório da Polícia Federal que Mendonça tornou público mostra contatos, contratos com o escritório da esposa do ministro e uma relação que o Planalto tenta desesperadamente tratar como “problema do Judiciário”, não do governo. Assessores fingem que a crise no STF “não é problema do Executivo”. É a clássica tentativa de lavar as mãos com água suja.
Os dois favoritos, portanto, estão presos no mesmo banco quebrado. Flávio negocia financiamento de propaganda política disfarçada de cinema com o homem que o Banco Central liquidou por fraude bilionária. Lula depende politicamente do ministro que agora aparece nas conversas do mesmo homem. Um lado grita “perseguição”; o outro grita “vazamento seletivo”. Ambos torcem para que o eleitor se distraia com a narrativa de vítima enquanto o rabo continua preso no Master.
Não se trata de moralismo. Trata-se de realismo. Quando os dois nomes que lideram as pesquisas estão enredados — direta ou indiretamente — na maior fraude financeira recente do país, o que está em jogo não é apenas a eleição. É a qualidade do que sobra para o brasileiro escolher. Um favorito investigado por lavagem ligada a banco liquidado. Outro favorito protegendo o ministro que conversava com o dono do mesmo banco. O resto é marketing de campanha.