
O "acordo" de Trump sobre petróleo na Venezuela é pura fantasia: eis a realidade que você não deveria saber.
Donald Trump anunciou, na sexta-feira 28 de agosto, o que chamou de “o maior acordo de petróleo da história”. Segundo o presidente americano e a governante interina venezuelana Delcy Rodríguez, os Estados Unidos passam a ter “controle majoritário” sobre 17 campos com cerca de 65 bilhões de barris de reservas comprovadas — aproximadamente 21,5% das reservas totais da Venezuela, o país com as maiores do mundo. O negócio, segundo Rodríguez, traria mais de US$ 100 bilhões em investimentos e US$ 209 bilhões em receitas fiscais ao Estado venezuelano ao longo de 25 anos, com meta de produção superior a 1,5 milhão de barris diários.
À primeira vista, o anúncio parece uma operação de salvamento de uma indústria em ruínas. A produção venezuelana despencou de mais de 3 milhões de barris por dia no final dos anos 1990 para cerca de 500 mil no pior momento de 2019. Décadas de desinvestimento, corrupção, politização da PDVSA e, depois, sanções americanas destruíram a capacidade produtiva. Sem dezenas de bilhões de dólares em capital, tecnologia e infraestrutura, a Venezuela não recupera sua principal fonte de divisas. Nesse sentido estreito, o acordo responde a uma necessidade objetiva.
Mas a forma, os termos e o contexto político transformam o que deveria ser um contrato de exploração em um episódio de realismo cínico e potencial entrega de soberania.
Números que não batem e transparência zero
Os primeiros números divulgados por Trump geraram cálculos desoladores. Economistas como Francisco Rodríguez apontaram que, se a Venezuela recebesse US$ 209 bilhões por 65 bilhões de barris, o retorno seria de cerca de US$ 3,20–3,30 por barril — uma fração ridícula do preço internacional e inferior até a royalties de concessões do início do século XX. Rodríguez tentou corrigir o tiro na noite seguinte: o cálculo usava preço de referência de US$ 65 e a Venezuela receberia cerca de US$ 19 por barril (algo em torno de 29% do preço). Ainda assim, especialistas consideram a faixa baixa para padrões internacionais contemporâneos.
Mais grave que a conta é a opacidade. O acordo foi anunciado sem debate público, sem discussão na Assembleia Nacional e sem divulgação prévia dos termos. Os venezuelanos souberam do negócio pelos vazamentos da imprensa americana e pelo Truth Social de Trump. Desde janeiro, o governo americano já controla as vendas do petróleo venezuelano e o destino dos recursos — e até hoje não há prestação de contas pública sobre volumes, preços e uso do dinheiro. Em um país onde o petróleo é, há um século, o principal ativo nacional e símbolo de soberania, ceder “controle majoritário” de campos estratégicos sem qualquer escrutínio é um escândalo institucional.
Legitimidade e o preço político do “pragmatismo”
Delcy Rodríguez não foi eleita. Assumiu após a captura de Nicolás Maduro e o reconhecimento americano de sua interinidade. Um acordo de 25 anos que afeta o coração da economia nacional firmado por um governo de legitimidade contestada cria um problema jurídico e político de primeira ordem. Analistas já alertam que o contrato pode ser questionado ou renegociado por qualquer governo futuro que pretenda restabelecer a ordem constitucional. O risco de instabilidade jurídica é real.
As críticas vêm de lados opostos. Ricardo Hausmann, da Harvard Kennedy School, acusou Washington de aliar-se aos “opressores” e promover uma “apropriação de ativos” em vez de pressionar pela restauração democrática. Rafael Ramírez, ex-presidente da PDVSA no auge do chavismo, falou em acordo “entreguista” e “novo colonialismo”. A ironia é reveladora: a mesma lógica nacionalista que o chavismo usou por décadas para criticar a “abertura” dos anos 1990 agora é invocada contra um governo que se diz herdeiro dessa tradição, mas negocia o controle majoritário de reservas com os Estados Unidos.
Há ainda o risco político de médio prazo. Quanto mais os EUA investirem no status quo sob Rodríguez, menor o incentivo para pressionar por uma transição genuína. O acordo pode consolidar uma relação de conveniência que adia eleições e mantém o chavismo no poder até 2030 ou 2031, exatamente o cenário temido pela oposição: Washington perde o interesse na democracia venezuelana quando o petróleo começa a fluir.
Quem ganha de verdade?
Para Trump, o negócio tem utilidade imediata e estratégica. Mais que dobra as reservas americanas contabilizadas, oferece uma narrativa de segurança energética e preços baixos de combustível às vésperas das eleições de meio de mandato, e reforça a visão de um “Escudo das Américas” que reduz a influência de China e Rússia no hemisfério. O petróleo venezuelano ainda serve para reabastecer a reserva estratégica americana, atualmente em níveis historicamente baixos.
Para a Venezuela, o benefício potencial — recuperação da produção e efeito multiplicador na economia — só se materializa se os investimentos de fato chegarem, se a gestão dos recursos for minimamente competente e se a soberania sobre o subsolo não for esvaziada na prática. Nada disso está garantido. A história recente mostra que a PDVSA e o Estado venezuelano já desperdiçaram a maior bonança petrolífera do século. Entregar o controle de campos estratégicos a uma potência estrangeira, sob um governo interino e sem transparência, não é exatamente a receita para quebrar esse padrão.
O acordo pode ser, ao mesmo tempo, economicamente necessário e politicamente corrosivo. Ele revela a fragilidade de uma Venezuela que, depois de um quarto de século de nacionalismo retórico, chega ao ponto de negociar fatias relevantes de suas reservas em condições de profunda assimetria de poder e absoluta falta de accountability. Chamar isso de “maior acordo da história” é publicidade. Avaliá-lo com rigor exige reconhecer que, por trás da retórica de prosperidade mútua, o que está em jogo é a capacidade de um país decidir, com um mínimo de autonomia e legitimidade, o destino de seu principal recurso.