Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

Rating: 3.2/5 (161 votos)

Partilhe esta Página

EM BREVE         



Total de visitas: 10821
Lula na ONU: quando a diplomacia vira palanque
Lula na ONU: quando a diplomacia vira palanque

 

Lula na ONU: quando a diplomacia vira palanque

O Brasil não precisa de um presidente que vá à ONU apenas para discursar. Precisa de um presidente que faça o Brasil ser ouvido, respeitado e levado a sério quando as decisões realmente importantes estiverem sendo tomadas.

A Assembleia Geral das Nações Unidas não deveria ser um palco para discursos destinados prioritariamente ao público doméstico. Não deveria funcionar como extensão de campanha eleitoral, nem como vitrine de afinidades ideológicas. E muito menos como oportunidade para transformar a política externa em instrumento de propaganda política.

A ONU é uma arena de interesses.

Ali se negociam poder, comércio, investimentos, tecnologia, energia, segurança e influência. Enquanto os grandes países disputam mercados e redesenham alianças, cada encontro entre chefes de Estado pode produzir consequências concretas para milhões de pessoas.

É nesse ambiente que o Brasil precisa jogar.

E é justamente por isso que a passagem de Luiz Inácio Lula da Silva por Nova York merece mais do que aplausos protocolares. Merece cobrança.

Segundo as informações que embasam este debate, pelo menos 73 pessoas tiveram autorização nominal para viajar durante o período da Assembleia Geral. Uma delegação desse tamanho poderia ser perfeitamente justificável se estivesse acompanhada de uma agenda capaz de produzir resultados econômicos e diplomáticos proporcionais.

Mas surge uma pergunta desconfortável: onde estavam os grandes empresários, investidores e agentes econômicos na agenda presidencial?

Nova York não é apenas a sede da ONU. É um dos maiores centros financeiros do mundo.

O Brasil precisa desesperadamente de investimentos, capital, tecnologia, infraestrutura, mercados e produtividade. Precisa gerar empregos e aumentar sua competitividade.

Mas, segundo a agenda divulgada, não apareceu uma única reunião presidencial com empresários ou investidores.

Pode ser coincidência.

Pode haver justificativas administrativas ou diplomáticas.

Mas, em política de Estado, oportunidades perdidas também precisam ser explicadas.

A ONU não é o palanque eleitoral brasileiro

O problema fica ainda mais evidente quando se observa o conteúdo político do discurso presidencial.

Em um momento próximo das eleições brasileiras, Lula utilizou parte de sua fala para abordar interferência estrangeira, ameaças à democracia e a existência de "inimigos internos e externos".

Defender a soberania brasileira é legítimo.

Denunciar qualquer tentativa de interferência estrangeira também é legítimo.

Mas a pergunta que precisa ser feita é incômoda:

era esse o principal interesse estratégico que o Brasil precisava projetar diante do mundo naquele momento?

A Assembleia Geral da ONU reúne praticamente todos os grandes atores da política internacional.

Enquanto Estados Unidos e China disputam tecnologia e cadeias produtivas, enquanto Europa, Rússia e Índia redefinem posições estratégicas e enquanto guerras e conflitos redesenham alianças, o Brasil não pode transformar o principal púlpito diplomático do planeta em extensão da disputa política nacional.

A ONU não existe para resolver eleições brasileiras.

Existe para tratar dos problemas do mundo.

E um presidente brasileiro deveria aproveitar esse palco para apresentar ao mundo aquilo que interessa permanentemente ao Estado brasileiro — não aquilo que produz maior repercussão entre seus próprios eleitores.

Presença não é influência

Há uma palavra que precisa ser retirada do debate: isolamento.

O Brasil não está isolado.

Participa do G20, dos BRICS, da ONU e de numerosos organismos multilaterais. Mantém relações diplomáticas com Estados Unidos, China, Rússia, Europa, países árabes e praticamente todo o mundo.

O problema é outro.

Presença não significa influência.

É possível estar sentado à mesa e continuar sem poder suficiente para alterar o cardápio.

É possível participar de dezenas de fóruns internacionais e continuar sendo apenas espectador das decisões estratégicas tomadas pelas grandes potências.

É possível fazer discursos grandiosos sobre soberania enquanto outros países controlam tecnologia, capital, cadeias produtivas, energia e mercados.

O tamanho do Brasil cria expectativas.

Mas tamanho não é poder.

Recursos naturais não são influência.

População não é influência.

Território não é influência.

Influência é a capacidade de transformar esses ativos em resultados.

E é aí que a política externa brasileira precisa ser cobrada.

Diplomacia não é clube de amigos

Outro problema é a tentação de confundir diplomacia com afinidade ideológica.

Lula pode conversar com quem quiser. Um governo pode estabelecer relações próximas com governos de esquerda. Pode defender palestinos, criticar Israel, questionar os Estados Unidos ou aproximar-se dos BRICS.

Tudo isso pode fazer parte de uma política externa legítima.

Mas existe uma diferença entre ter posições e transformar essas posições em uma espécie de identidade diplomática permanente.

O Brasil precisa conversar com Washington e Pequim.

Com Moscou e Bruxelas.

Com Israel e países árabes.

Com governos de esquerda e de direita.

Não por simpatia.

Por interesse nacional.

Diplomacia não é terapia ideológica.

É negociação.

Um país não precisa gostar do interlocutor para negociar com ele. Precisa apenas saber o que quer.

E o que o Brasil deveria querer é bastante simples: mercados, investimentos, tecnologia, segurança, crescimento econômico e maior poder de negociação.

 

O Brasil precisa parar de confundir discurso com poder

Existe uma certa facilidade na política brasileira para confundir palavras com resultados.

Discursos sobre soberania não produzem soberania.

Discursos sobre desenvolvimento não produzem desenvolvimento.

Discursos sobre liderança internacional não produzem liderança.

E discursos sobre multipolaridade não transformam automaticamente o Brasil em potência global.

Potência se constrói com economia competitiva.

Com tecnologia.

Com produtividade.

Com empresas fortes.

Com capacidade militar e energética.

Com estabilidade institucional.

Com comércio.

Com investimentos.

Com diplomacia profissional.

E, principalmente, com capacidade de negociação.

É isso que precisa estar no centro da política externa.

Não a quantidade de bandeiras.

Não a quantidade de discursos.

Não a quantidade de fotografias.

Resultados.

A pergunta que o governo precisa responder

O Brasil enviou uma grande comitiva a Nova York.

Recebeu pedidos de reuniões.

Participou de encontros multilaterais.

Produziu discursos.

Defendeu posições.

Mas a pergunta fundamental permanece:

o que o Brasil ganhou?

Quantos investimentos foram atraídos?

Quantos mercados foram abertos?

Quantos acordos comerciais avançaram?

Quantas empresas brasileiras receberam novas oportunidades?

Quanto capital estrangeiro foi mobilizado?

Quanto poder de negociação o Brasil conquistou?

Essas perguntas são muito menos glamorosas do que os discursos da ONU.

Mas são infinitamente mais importantes.

Porque um país não alimenta sua população com prestígio diplomático.

Não moderniza sua indústria com aplausos.

Não constrói infraestrutura com declarações.

Não cria empregos com fotografias.

O Brasil é grande demais para brincar de potência

O paradoxo brasileiro é brutal.

Temos território continental.

Uma das maiores economias do planeta.

Recursos naturais extraordinários.

Produção agrícola capaz de alimentar centenas de milhões de pessoas.

Matriz energética relevante.

Biodiversidade estratégica.

Mercado consumidor gigantesco.

Participação no G20.

Peso nos BRICS.

E uma posição geográfica privilegiada.

O Brasil não precisa inventar importância.

Ele já é importante.

O que precisa fazer é converter importância potencial em poder efetivo.

E isso exige menos espetáculo e mais estratégia.

Menos palanque.

Mais negociação.

Menos ideologia.

Mais interesse nacional.

Menos preocupação com a repercussão doméstica.

Mais preocupação com aquilo que o Brasil estará negociando daqui a dez, vinte ou trinta anos.

Porque presidentes passam.

Partidos passam.

Governos passam.

O Brasil fica.

E a política externa deveria servir ao Brasil — não ao governo de turno.

A Assembleia Geral da ONU oferece ao presidente brasileiro uma das maiores vitrines diplomáticas do mundo.

Usá-la para defender os interesses nacionais é obrigação.

Usá-la prioritariamente para reforçar a narrativa política doméstica é outra coisa.

O Brasil não precisa de uma diplomacia que procure aplausos.

Precisa de uma diplomacia que produza resultados.

Porque, no fim, o verdadeiro teste da política externa não é saber se o discurso foi aplaudido.

É saber se, quando as grandes potências fecharem as portas e começarem a decidir o futuro, alguém terá de perguntar o que o Brasil pensa — e levar a resposta em consideração.

 

Purifique se de todos os preconceitos que te amontoaram em tua mente; despojado das tuas ideias enganadoras, de suas raízes, malignas.