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Israel, os assentamentos e o preço da impunidade
Israel, os assentamentos e o preço da impunidade

 

Israel, os assentamentos e o preço da impunidade

Sanções britânicas expõem o crescente isolamento da política de assentamentos e revelam uma divisão que Israel prefere ignorar

Durante anos, a expansão dos assentamentos israelenses na Cisjordânia foi tratada por governos ocidentais com uma combinação de discursos diplomáticos, advertências protocolares e pouca disposição para adotar medidas concretas. Em setembro de 2026, entretanto, essa equação começa a mudar.

O Reino Unido decidiu impor sanções relacionadas ao comércio com assentamentos israelenses na Cisjordânia, em uma iniciativa coordenada com França, Canadá e outros países. A justificativa apresentada pelo governo britânico é direta: a expansão dos assentamentos ameaça a possibilidade de criação de um Estado palestino e aprofunda uma ocupação considerada ilegal pelo governo britânico.

A reação israelense foi imediata. O governo determinou o fechamento do consulado britânico em Jerusalém e proibiu a entrada no país de 12 parlamentares e ativistas britânicos. Em Washington, também surgiram ameaças de retaliação comercial.

A pergunta que permanece é incômoda: por que medidas contra os assentamentos são tratadas por Israel como uma agressão contra os judeus, quando o alvo declarado são políticas e estruturas associadas à ocupação?

Não são os judeus

Esse é um ponto que precisa ser repetido.

Criticar o governo israelense não significa atacar judeus. Condenar a ocupação não significa defender o antissemitismo. Questionar os assentamentos não significa questionar a existência de Israel.

O próprio debate dentro da comunidade judaica britânica demonstra isso.

O texto publicado pelo The Guardian mostra que rabinos de diferentes correntes assumiram posições distintas diante das sanções. Alguns as criticaram. Outros as apoiaram. Outros defenderam medidas ainda mais fortes contra a expansão dos assentamentos.

O rabino Jonathan Wittenberg foi particularmente contundente. Depois de visitar a comunidade palestina de Umm al-Khair, afirmou ter testemunhado pessoalmente os efeitos da violência de colonos e classificou o que ocorre na Cisjordânia como uma violação grave dos princípios religiosos judaicos. Para ele, permanecer em silêncio diante dessa realidade não é uma opção.

A rabina Alexandra Wright também argumentou que a ocupação e a escalada da violência prejudicam tanto palestinos quanto israelenses.

Isso desmonta uma narrativa conveniente: a de que qualquer oposição às políticas israelenses seria automaticamente uma manifestação de ódio aos judeus.

Não é.

Há judeus que discordam profundamente do governo de Israel. Há judeus que defendem sanções. Há judeus que denunciam a violência dos colonos. E há judeus que consideram a ocupação incompatível com os próprios valores religiosos e éticos que defendem.

Quando a ocupação vira política de Estado

O problema dos assentamentos não pode ser reduzido a episódios isolados envolvendo indivíduos violentos.

Quando comunidades são expandidas em território ocupado, quando a presença de colonos se consolida e quando governos sucessivos permitem ou incentivam esse processo, deixa de existir apenas uma sucessão de incidentes locais.

Existe uma política.

E políticas precisam ser julgadas por seus resultados.

O texto relata que rabinos favoráveis às sanções rejeitam a ideia de que o silêncio seja uma alternativa diante da expansão dos assentamentos. Jeremy Gordon, por exemplo, criticou a estratégia de simplesmente ignorar ou apaziguar o movimento de colonos. Lev Taylor, por sua vez, afirmou que o judaísmo que professa rejeita a ocupação.

É difícil ignorar a força desse argumento.

Se governos e instituições internacionais afirmam durante décadas que os assentamentos constituem um obstáculo à paz, mas continuam sem consequências concretas, que incentivo existe para interromper sua expansão?

A ausência de consequências também é uma política.

A diplomacia do discurso acabou?

A decisão britânica representa uma mudança importante justamente porque abandona, ao menos parcialmente, a diplomacia baseada exclusivamente em declarações.

Durante décadas, governos ocidentais defenderam a chamada solução de dois Estados enquanto assistiam à expansão territorial que, segundo seus próprios argumentos, tornava essa solução cada vez mais difícil.

É uma contradição evidente.

De um lado, afirma-se defender um Estado palestino.

De outro, tolera-se a expansão de assentamentos no território onde esse Estado deveria existir.

Em algum momento, a distância entre discurso e realidade se torna grande demais para ser ignorada.

Foi exatamente essa justificativa que o governo britânico apresentou ao anunciar as sanções: a expansão dos assentamentos ameaça o futuro de um Estado palestino.

Netanyahu e o custo político

Dentro de Israel, a decisão britânica também encontrou apoio.

O parlamentar israelense Gilad Kariv, citado no texto, atribuiu diretamente a responsabilidade pelo crescente movimento europeu de sanções ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e a outros integrantes do governo.

Essa crítica é politicamente significativa.

Se até representantes israelenses responsabilizam o próprio governo pelo crescente isolamento internacional, torna-se cada vez mais difícil apresentar toda crítica externa como simples hostilidade contra Israel.

Governos são responsáveis pelas decisões que tomam.

E governos democráticos precisam aceitar que suas políticas sejam julgadas, criticadas e, quando necessário, punidas diplomaticamente.

O argumento do antissemitismo não pode ser usado como escudo

O antissemitismo existe e deve ser combatido sem hesitação.

Mas justamente por ser uma ameaça real, ele não deveria ser instrumentalizado para blindar governos contra críticas legítimas.

Os próprios líderes judaicos britânicos citados no texto fazem uma distinção importante: medidas dirigidas aos assentamentos israelenses não são automaticamente ataques contra judeus.

Essa distinção é fundamental.

Um governo não representa cada indivíduo pertencente à sua população.

Uma política estatal não representa uma religião.

Um assentamento não representa o judaísmo.

E criticar uma decisão do governo de Israel não transforma automaticamente o crítico em antissemita.

Confundir essas categorias não combate o preconceito. Ao contrário, pode banalizar a acusação de antissemitismo e enfraquecer a capacidade da sociedade de identificar manifestações verdadeiramente racistas.

A reação israelense revela o problema

A resposta de Israel às sanções britânicas também merece questionamento.

Em vez de concentrar a discussão na legalidade e nas consequências da política de assentamentos, o governo israelense respondeu com medidas diplomáticas contra o Reino Unido.

É uma estratégia conhecida: deslocar o debate.

O foco deveria ser a ocupação, a expansão territorial, a violência dos colonos e o futuro dos palestinos.

Mas a discussão acaba transformada em uma disputa sobre quem está sendo "hostil" a quem.

Enquanto isso, a realidade no terreno permanece.

E é justamente essa realidade que os rabinos que apoiaram as sanções dizem ter testemunhado.

Israel precisa ser responsabilizado por suas escolhas

Nenhum Estado deve estar acima das consequências de suas próprias políticas.

Israel tem direito à segurança. Seus cidadãos têm direito à proteção. Judeus em qualquer lugar do mundo têm direito de viver livres do antissemitismo.

Mas os palestinos também têm direitos.

Segurança não pode significar licença permanente para ocupar. Defesa não pode significar impunidade. E a existência de Israel não pode ser utilizada como argumento para negar indefinidamente aos palestinos o direito à autodeterminação.

O verdadeiro teste de uma democracia não é sua capacidade de justificar suas próprias ações.

É sua capacidade de aceitar limites.

As sanções britânicas podem ser discutidas. Podem ser consideradas insuficientes, excessivas ou inadequadas. Até líderes judaicos que condenam a violência dos assentamentos divergem sobre a eficácia dessas medidas.

Mas uma coisa parece cada vez mais difícil de negar: a política de ocupação e expansão dos assentamentos está produzindo um custo diplomático crescente para Israel.

E esse custo não pode ser eternamente apresentado como consequência do preconceito alheio.

Em última análise, governos são julgados pelas escolhas que fazem.

Israel também.

E, se a expansão dos assentamentos destrói as possibilidades de convivência, alimenta a violência e torna cada vez mais distante a solução de dois Estados, talvez a questão mais urgente não seja perguntar por que o mundo começou a impor sanções.

Talvez seja perguntar por que demorou tanto.

Purifique se de todos os preconceitos que te amontoaram em tua mente; despojado das tuas ideias enganadoras, de suas raízes, malignas.