
Campanha eleitoral repleta de mentiras
A confiança social é realmente uma superpotência — e o texto do Jimmy Alfonso Licon (publicado no Fio Mises) captura isso com precisão. Em sociedades de alta confiança, a gente consegue viver, negociar, trabalhar e até votar sem precisar vigiar cada estranho o tempo todo. Isso reduz drasticamente os custos de transação e permite o que ele chama de “ignorância produtiva”: não saber tudo sobre o outro porque as instituições, a reputação e os incentivos já fazem boa parte do trabalho de verificação por nós.
O problema que você aponta — campanha eleitoral repleta de mentiras — atinge exatamente o ponto frágil dessa estrutura. Quando os políticos (de quase todos os lados) tratam a verdade como ferramenta descartável, eles não estão apenas mentindo sobre propostas ou adversários. Estão corroendo o tecido que permite a cooperação em larga escala. Em termos do argumento de Licon:
- Alta confiança social→ pessoas agem com base em expectativas estáveis, normas e reputação. A ignorância sobre motivações detalhadas é suportável e até eficiente.
- Baixa confiança social → cada interação exige verificação constante, contratos mais rígidos, burocracia, vigilância e desconfiança. A ignorância deixa de ser produtiva e vira perigosa.
Na política eleitoral, o incentivo estrutural favorece a mentira: o custo de ser pego mentindo é baixo (muitos eleitores têm memória curta, a mídia é fragmentada, e a prestação de contas é fraca), enquanto o benefício de uma narrativa emocionalmente poderosa é alto. Isso transforma a campanha num jogo de sinalização barata, não de compromisso sério. Resultado: o eleitor racional acaba investindo mais tempo e energia tentando “verificar” o que deveria ser parcialmente dado como certo — ou, pior, desiste e vota por identidade, raiva ou cansaço.
Isso não significa que a confiança social desapareça por completo. Ela continua existindo nos mercados, nas relações cotidianas, nas empresas e nas comunidades locais, onde os incentivos de reputação e repetição de interações ainda funcionam melhor. O problema é que a política tem o poder de irradiar desconfiança para outros domínios. Quando as pessoas passam a tratar instituições públicas como inerentemente mentirosas, a coordenação em larga escala fica mais cara e mais frágil — exatamente o oposto do que o texto descreve como desejável.
Algumas implicações práticas que seguem do argumento de Licon:
1. Não dá para restaurar confiança exigindo “mais transparência” infinita. Transparência total tem custos altos (atenção, interpretação, fiscalização) e pode sinalizar ainda mais desconfiança. O que sustenta confiança de verdade são estruturas de incentivo que tornam o engano caro e a cooperação estável (reputação, responsabilidade real, regras claras e aplicação previsível).
2. **Mercados e instituições privadas tendem a ser melhores “produtores” de confiança** do que a política. Num mercado competitivo, mentir sobre qualidade ou cumprimento de contrato tem consequências rápidas e diretas. Na política, o feedback é lento, difuso e muitas vezes distorcido.
3. A confiança social não exige que todos os políticos sejam honestos. Exige que o sistema limite o dano que os desonestos podem causar. Quando as regras do jogo recompensam a mentira, a confiança se deteriora independentemente da boa vontade individual.
A pergunta “como vamos ter confiança para escolher políticos?” é, portanto, parcialmente mal colocada. Em um ambiente de baixa confiança política, a escolha racional não é “encontrar o político honesto”, mas reduzir a importância da honestidade pessoal do político — ou seja, limitar o poder discricionário, fortalecer instituições que funcionam independentemente da virtude dos ocupantes e preservar os espaços (mercados, associações voluntárias, comunidades) onde a confiança ainda consegue se reproduzir.
O texto de Licon termina com uma observação importante: a confiança social só justifica a ignorância produtiva enquanto as instituições e os mecanismos de reputação estiverem funcionando. Quando esses mecanismos se deterioram (como parece acontecer em muitas campanhas eleitorais), a mesma ignorância vira vulnerabilidade. Por isso a preocupação que você levanta não é exagero — é um sintoma de que o “alicerce” de que fala Frederick Douglass está sob pressão.