Câmara dos Deputados: O desprezo pelo trabalho que o povo paga
Enquanto que se discuti à escala 6x1, os deputados federais reinventaram o conceito de jornada de trabalho. Eles adotaram, na prática, a escala 6 por 44: seis sessões que realmente importam e quarenta e quatro de embromação, folga e votação de pijama.
Nos últimos três meses — de 1º de junho até agora —, a Câmara realizou 50 sessões deliberativas no Plenário. Deliberativas de verdade, aquelas em que se vota e se decide o destino do país, foram apenas 16. Ou seja, 32%. O restante? Sessões solenes, homenagens a figuras anônimas e cerimônias que servem mais para preencher a agenda do que para produzir qualquer resultado concreto. Embromação institucionalizada.
E não para por aí. Das 16 votações que de fato importavam, só seis exigiram a presença física do parlamentar em Brasília. As outras dez ocorreram de forma remota, via aplicativo. A última vez em que a Câmara impôs a obrigação de pisar no Congresso foi em 17 de junho. Depois disso, liberados. Até o “esforço concentrado” — aquele teatro montado para inglês (ou eleitor) ver — dispensou a presença obrigatória. Todo mundo votando de onde bem entender: do sofá, da praia, do gabinete eleitoral ou de qualquer lugar com Wi-Fi.
É o paraíso da moleza legislativa. A remuneração continua alta, os benefícios intactos, o fundo partidário e o eleitoral alimentados, e a produtividade, quando medida pelo que realmente interessa — votar e deliberar —, é vergonhosa. Se o salário dessas excelências fosse proporcional ao número de sessões deliberativas presenciais, muitos passariam aperto. Mas não passam. O sistema foi desenhado para que a ausência seja confortável e a presença, opcional.
O argumento de que “a pandemia mudou tudo” já não cola. Estamos em 2026. O país voltou ao normal há anos. Quem trabalha em hospital, escola, fábrica ou comércio não tem a opção de votar (ou trabalhar) de casa quando bem entende. Deputado, sim. E ainda se ofende quando alguém aponta a hipocrisia.
Essa escala 6 por 44 não é acidente. É escolha. É a materialização do desprezo pela representação. Enquanto o Plenário vira palco de homenagens irrelevantes e votações à distância, projetos que afetam a vida real do cidadão — reforma, tributação, segurança, saúde — ficam reféns de agendas políticas e de conveniências pessoais.
O eleitor paga a conta. O parlamentar colhe o conforto. E a democracia, mais uma vez, é tratada como detalhe burocrático. Quando a jornada de quem faz as leis se transforma em regime de semi-folga permanente, o que está em jogo não é apenas a produtividade da Câmara. É a legitimidade de quem ocupa aquelas cadeiras.