
A crise de Lula não é apenas eleitoral; é uma crise de coerência. O governo voltou ao poder prometendo reconstruir a economia, pacificar o país, defender a soberania nacional e representar os mais pobres. Ao longo do mandato, porém, acumulou contradições entre discurso e prática: ampliou a dependência do Estado ao mesmo tempo em que pressionou quem produz, falou em soberania enquanto buscava acomodação com diferentes centros de poder, defendeu instituições enquanto se aproximava de setores do Judiciário e apostou na polarização justamente quando precisava reconstruir uma maioria social. O resultado é o enfraquecimento daquilo que historicamente sustentou o lulismo: sua capacidade de convencer o eleitor de que Lula compreende a vida real do brasileiro.
A eleição brasileira entrou em sua fase decisiva, mas o resultado do primeiro turno já produziu um diagnóstico político difícil de ignorar: o lulismo perdeu capacidade de convencer para além de sua base tradicional. Mais do que uma disputa eleitoral apertada, o cenário revela o desgaste de um projeto político que voltou ao poder prometendo reconstruir pontes, recuperar a economia e recolocar o Brasil no centro do debate internacional — mas que termina o ciclo cercado por contradições, dificuldades de governabilidade e crescente rejeição em parcelas importantes do eleitorado.
A questão, portanto, já não é apenas saber quem vencerá o segundo turno. É compreender por que o governo Lula chegou a esse ponto.
A resposta passa menos por teorias conspiratórias, interferências externas ou supostas manipulações eleitorais e mais pelas escolhas feitas pelo próprio governo.
O principal erro do lulismo é interpretar a eleição apenas como uma disputa entre esquerda e direita.
O Brasil de 2026 é muito mais complexo.
Existe uma parcela do eleitorado que continua identificada com Lula e com o Partido dos Trabalhadores. Existe também um eleitorado fortemente alinhado ao bolsonarismo. Mas há, sobretudo, milhões de brasileiros que não se sentem representados integralmente por nenhum dos dois campos.
É justamente esse eleitorado intermediário que pode decidir o futuro político do país.
Quando um governo atribui sua rejeição exclusivamente ao adversário, às redes sociais, à imprensa, às elites econômicas ou ao comportamento supostamente irracional do eleitor, ele perde a oportunidade mais importante de qualquer democracia: compreender por que parte da população deixou de acreditar em sua narrativa.
O eleitor não precisa concordar com Lula para ter razões legítimas para rejeitá-lo. E tampouco precisa ser bolsonarista para estar insatisfeito com o governo.
Essa distinção é fundamental.
Um dos pilares da narrativa governista é a ideia de que a economia melhorou e que os resultados deveriam naturalmente se converter em popularidade.
Mas indicadores macroeconômicos positivos não significam, automaticamente, sensação de prosperidade no cotidiano.
Para milhões de brasileiros, a economia é percebida através do preço dos alimentos, dos impostos, do custo do crédito, do aluguel, dos combustíveis, das contas domésticas e da dificuldade de empreender.
É nesse ponto que surge uma das maiores contradições do discurso oficial.
O governo pode apresentar números positivos de emprego e crescimento, mas, se o trabalhador sente que sua renda é consumida por impostos e despesas crescentes, a percepção de melhora desaparece.
Da mesma forma, programas de transferência de renda podem reduzir situações imediatas de pobreza sem resolver problemas estruturais de produtividade, qualificação profissional, segurança, infraestrutura e geração de oportunidades.
Uma política social eficiente deve proteger quem precisa sem transformar a dependência do Estado em substituto permanente para a autonomia econômica.
O problema não está em ajudar os pobres. O problema está em imaginar que assistência, sozinha, pode substituir desenvolvimento.
Outro ponto de desgaste está na relação entre governo e contribuinte.
A expansão da arrecadação, a criação ou elevação de tributos e o aumento da complexidade regulatória alimentam a percepção de que o Estado está crescendo enquanto o cidadão comum trabalha cada vez mais para sustentá-lo.
Esse problema atinge especialmente pequenos empresários, profissionais autônomos e trabalhadores que tentam transformar atividade informal em empreendimento legalizado.
Quando empreender se torna excessivamente burocrático, caro ou arriscado, o Estado produz justamente o contrário do que deveria produzir: menos produtividade, menos investimento e menos oportunidades.
A contradição torna-se evidente.
O governo promete inclusão econômica, mas pode criar mecanismos que dificultam a vida daqueles que precisam produzir para ascender socialmente.
Existe, porém, uma questão ainda mais profunda: segurança pública.
Nenhum projeto de soberania nacional pode ser considerado completo quando parcelas do território ficam submetidas ao poder de organizações criminosas.
O problema não é apenas policial. É institucional.
Quando grupos criminosos controlam territórios, cobram taxas, impõem regras, intimidam moradores e substituem funções do Estado, existe uma erosão concreta da soberania.
Por isso, qualquer discurso sobre soberania nacional precisa começar pela capacidade do Estado de garantir a lei dentro de suas próprias fronteiras.
E aqui está outra contradição do debate brasileiro: enquanto o Estado demonstra enorme capacidade de mobilização institucional em determinadas disputas políticas e culturais, frequentemente parece incapaz de oferecer resposta equivalente diante do crime organizado.
A população percebe essa assimetria.
E ela gera revolta.
O cidadão comum não quer saber apenas quem está certo em uma guerra cultural. Ele quer poder sair de casa sem medo, trabalhar sem ser extorquido e criar os filhos sem conviver diariamente com a ameaça da violência.
Talvez uma das maiores contradições políticas do lulismo esteja na relação construída com o Supremo Tribunal Federal.
Lula conhece, por experiência própria, os efeitos do poder judicial sobre a política. Foi preso, teve suas condenações posteriormente anuladas por questões processuais e jurisdicionais e retornou ao cenário eleitoral.
Por isso, seria razoável esperar que seu governo mantivesse uma posição extremamente cautelosa diante da expansão do protagonismo judicial.
Ocorreu o contrário.
Ao aproximar-se politicamente de setores do sistema de Justiça e ao defender determinadas medidas de enfrentamento a seus adversários, o PT acabou associado a uma estrutura de poder que parte significativa de seu próprio eleitorado historicamente criticou.
O problema não é defender instituições.
Democracia exige instituições fortes.
O problema começa quando qualquer instituição passa a ser tratada como instrumento de um campo político.
A democracia brasileira não pode funcionar com a lógica de que decisões judiciais são boas quando atingem o adversário e abusivas quando atingem aliados.
O mesmo princípio precisa valer para todos.
Lula construiu boa parte de sua imagem internacional sobre a defesa do multilateralismo, da autonomia brasileira e de uma ordem mundial mais equilibrada.
Mas a política externa brasileira não cabe facilmente na narrativa de um Brasil simplesmente "antiocidental" ou automaticamente alinhado ao projeto multipolar.
O governo mantém relações simultâneas com Estados Unidos, União Europeia, China, Rússia e outras potências.
Negocia com diferentes blocos, participa de instituições multilaterais e procura preservar espaço de manobra.
Isso não é necessariamente um defeito. Na verdade, pode ser uma característica inevitável da diplomacia de um país com os interesses e a dimensão do Brasil.
O problema surge quando a retórica política promete uma ruptura que a prática diplomática não confirma.
A política externa brasileira é, por natureza, pragmática.
O Brasil não pode escolher entre grandes potências como quem escolhe um time de futebol.
Sua soberania depende justamente da capacidade de conversar com todos sem se transformar em dependente de nenhum.
Outro erro é reduzir a disputa brasileira a uma oposição absoluta entre um Lula supostamente multipolarista e um Bolsonaro supostamente atlantista.
A realidade é mais complicada.
Governos brasileiros, independentemente de sua orientação ideológica, precisam negociar simultaneamente com Washington, Pequim, Bruxelas, Moscou e com os países vizinhos.
A diferença está no discurso, nas prioridades e nos instrumentos utilizados.
Transformar essa complexidade em uma batalha moral entre "globalistas" e "soberanistas" simplifica uma realidade que exige pragmatismo.
O Brasil precisa de autonomia estratégica, não de submissão ideológica.
Há ainda uma questão que ultrapassa o segundo turno: o futuro do próprio Partido dos Trabalhadores.
Durante décadas, Lula foi o centro de gravidade da esquerda brasileira.
Essa liderança foi, ao mesmo tempo, sua maior força e sua maior fragilidade.
O PT conseguiu sobreviver a crises, escândalos, derrotas eleitorais e mudanças econômicas porque Lula permaneceu como seu principal ativo eleitoral.
Mas isso criou um problema estrutural: a dificuldade de formar uma liderança capaz de substituir Lula sem depender de sua imagem.
Partidos que dependem excessivamente de uma única personalidade acabam confundindo liderança com projeto político.
Quando a liderança desaparece, surge o vazio.
É possível que esse seja o verdadeiro desafio colocado diante da esquerda brasileira: não simplesmente vencer ou perder uma eleição, mas descobrir qual projeto pretende oferecer ao país depois da era Lula.
É preciso evitar outro erro: confundir o desgaste do lulismo com a morte da esquerda.
Uma coisa não implica necessariamente a outra.
A esquerda brasileira pode sobreviver a Lula. Mas provavelmente não sobreviverá intacta.
Pode surgir uma esquerda mais radicalizada nos costumes. Pode surgir uma esquerda nacional-desenvolvimentista. Pode haver uma tentativa de reconstrução social-democrata. Ou pode ocorrer simplesmente uma fragmentação entre diferentes correntes.
O que parece mais difícil é imaginar que o modelo baseado quase exclusivamente na liderança de Lula continuará funcionando indefinidamente.
A sucessão será inevitável.
E quanto mais tarde ela começar, mais traumática poderá ser.
O maior equívoco de qualquer governo é acreditar que o eleitor deve reconhecer automaticamente suas virtudes.
Democracia não funciona assim.
O governo apresenta seus resultados. A oposição apresenta suas críticas. E o cidadão decide.
Se a população considera que os preços continuam altos, que a segurança piorou, que os impostos pesam, que os serviços públicos não correspondem ao tamanho da arrecadação ou que o governo perdeu capacidade de representar suas expectativas, não cabe ao poder político dizer que essa percepção é ilegítima.
Cabe ouvi-la.
A eleição, nesse sentido, funciona como um mecanismo de correção.
Ela mostra aquilo que pesquisas, discursos oficiais e propaganda partidária muitas vezes escondem: o estado real da relação entre governantes e governados.
As contradições acumuladas finalmente chegaram às urnas.
Não é preciso atribuir a derrota a uma conspiração estrangeira. Não é necessário imaginar uma operação secreta das redes sociais. Tampouco é necessário considerar todo eleitor insatisfeito como fascista, ignorante ou manipulado.
Existe uma explicação muito mais simples.
Governos são julgados pelos resultados que entregam, pela percepção que produzem e pela capacidade de compreender a sociedade que governam.
Lula continua sendo uma das figuras mais importantes da história política brasileira. Seu legado contém conquistas, controvérsias, erros, acertos e enormes contradições.
Mas exatamente por isso sua trajetória não deveria terminar cercada pela incapacidade de reconhecer os próprios limites.
O lulismo pode até sobreviver eleitoralmente.
Pode até vencer.
Mas uma vitória apertada não apagaria os problemas que levaram o país a este ponto. Pelo contrário: poderia apenas adiar o acerto de contas.
A verdadeira questão, portanto, não é simplesmente se Lula ainda consegue ganhar uma eleição.
É se o projeto político construído em torno de Lula ainda consegue convencer o Brasil de que possui um futuro para oferecer.
Essa resposta não será dada pelo discurso do governo.
Será dada pelo eleitor.
E, desta vez, as contradições acumuladas parecem ter chegado antes do resultado final.
O que está em crise não é apenas o governo Lula, mas a fórmula política do lulismo. Durante anos, Lula conseguiu transformar contradições em coalizões: falar simultaneamente ao mercado e aos trabalhadores, à esquerda e ao centro, ao nacionalismo e ao pragmatismo internacional. Agora, as mesmas contradições que antes ampliavam seu campo político começam a produzir o efeito inverso. O trabalhador não se reconhece necessariamente no discurso econômico do governo; o pequeno empreendedor se sente pressionado pelo Estado; parte da população associa o governo à insegurança e à polarização institucional; e a política externa, marcada pelo pragmatismo, já não sustenta facilmente a imagem de um projeto claramente definido. O preço político disso é a perda daquilo que sempre foi a maior força de Lula: sua capacidade de representar grupos diferentes ao mesmo tempo.