
A política de fingir sucesso
No Brasil, a política de fingir sucesso não é novidade. É método. Políticos de todos os campos dominam a arte de transformar anúncios, vídeos e discursos em “vitórias históricas”, enquanto a vida real do brasileiro segue pressionada por preços altos, dívida pública crescente e a sensação de que o país não anda. Isso não exclusividade, os americanos fazem isso como ninguém, mas a diferença para o espetáculo americano é apenas de escala e de idioma: aqui o show é em português, com Bolsa Família, “nunca antes na história deste país” e lives no Instagram.
Como político, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sempre soube orquestrar a narrativa. Em seu terceiro mandato, o governo investiu pesado em publicidade institucional — centenas de milhões de reais em 2025 e 2026 — para vender programas sociais, isenção de Imposto de Renda e “o governo do lado do povo”. O slogan se repete, as peças se multiplicam e a máquina de comunicação oficial transforma qualquer entrega parcial em prova de genialidade. Quando a avaliação cai, o tom muda: de “nunca antes” para um discurso mais “pé no chão”, reconhecendo limitações, mas sem abrir mão da imagem de quem “sente a dor do povo”. O objetivo não é resolver a estrutura de custos, o fiscal descontrolado ou a baixa produtividade. É consolidar o legado e sobreviver politicamente.
A mesma lógica vale para o outro lado do espectro. Jair Bolsonaro e, agora, a candidatura de Flávio Bolsonaro apostam em vitórias simbólicas, confrontos com instituições e a ideia de que “o sistema” é o único obstáculo. Anúncios de “sucesso” em segurança pública, combate à corrupção ou defesa da família viram refrão, mesmo quando os números e os resultados concretos são ambíguos ou contraditórios. A polarização ajuda: cada lado alimenta a ilusão de que o adversário é o único responsável pelo fracasso, enquanto o próprio campo se apresenta como a solução inevitável.
O eleitor brasileiro, vive em um ambiente em que as consequências imediatas das escolhas políticas são difusas. A inflação pode não estar nos picos de anos anteriores, mas o custo de vida continua alto. O desemprego cai, o PIB cresce modestamente, mas a sensação subjetiva de melhoria não acompanha. Programas sociais se expandem, pacotes de bondades são anunciados perto das eleições, e a dívida pública se aproxima de patamares preocupantes. Ainda assim, muitos preferem acreditar na narrativa que confirma o que já querem acreditar: “meu lado está ganhando”.
Um exemplo recente e ilustrativo é o uso de balanços seletivos. Governos estaduais e municipais de diferentes colorações fazem o mesmo: anunciam “déficit zerado” ou “superávit histórico” com base em receitas otimistas, adiamentos de pagamentos, repasses extraordinários ou revisões que ainda não se concretizaram. O vídeo de dois minutos, a live, o post no X ou no Instagram criam a impressão de competência imediata. Os apoiadores celebram. A realidade fiscal, mais tarde, cobra o preço — em juros altos, ajustes tardios ou novas rodadas de “pacotes”.
Essa estratégia não é monopólio de um partido. Ela é o produto natural de um sistema em que o poder político recompensa a performance mais do que o resultado. O político que admite dificuldades e aponta causas estruturais (produtividade baixa, carga tributária distorcida, educação de má qualidade, Estado capturado por interesses) perde espaço para o que promete soluções mágicas e entrega imagens de sucesso. A mídia tradicional e as redes sociais colaboram, cada uma à sua maneira: uma amplifica o conflito, a outra viraliza o espetáculo.
A realidade, porém, não é opcional. Ela volta. Quando a conta do custo de vida aperta demais, quando a inflação de alimentos ou o endividamento familiar voltam a dominar as conversas de boteco e de grupo de WhatsApp, quando a “vitória histórica” se revela apenas um anúncio, a ilusão começa a rachar. O político pode tentar novas distrações — mais publicidade, mais confronto, mais “pacotes” —, mas o espaço para delírios coletivos não é infinito.
A política de fingir sucesso funciona enquanto o eleitor aceita viver em um mundo paralelo. No Brasil de 2026, com eleições em curso e uma disputa marcada por narrativas concorrentes, essa aceitação ainda é ampla. Mas a história recente mostra que, cedo ou tarde, a realidade se impõe. E quando isso acontece, a vantagem fica com quem nunca a abandonou.