
A Era da Ladroagem
Entre a fundação em 1980 e o fim do século 20, o Partido dos Trabalhadores projetou-se como o partido da ética e da honestidade.** A retórica era de pureza moral, de “mocinhos” contra o sistema. Na prática, assim que os primeiros prefeitos petistas assumiram o poder, as rachaduras apareceram. Casos locais de desvios, superfaturamentos e esquemas de propina mostraram que a distância entre discurso e realidade era grande. Quando Lula venceu em 2002, o partido chegou ao governo federal com a estrutura pronta para transformar práticas municipais e estaduais em operação de escala nacional.
O PT não inventou a corrupção brasileira. Ela existe desde a Colônia e atravessou a República em todas as cores partidárias. O que o partido fez, de forma sistemática, foi institucionalizar o caixa 2, a compra de apoio parlamentar e o uso de estatais como fonte de financiamento político e enriquecimento ilícito, tudo sob o manto da “governabilidade” e da “inclusão social”. O resultado foi uma sucessão de escândalos que marcou o primeiro quarto do século 21.
O Mensalão e a compra de votos
Em 2005, o então deputado Roberto Jefferson denunciou o esquema que ficou conhecido como Mensalão: pagamento regular a parlamentares da base aliada para garantir apoio ao governo. O dinheiro vinha de desvios em contratos públicos, empréstimos fraudulentos e caixa 2. José Dirceu, então ministro da Casa Civil, foi apontado como o coordenador político do esquema. Delúbio Soares, tesoureiro do PT, e Marcos Valério, o operador financeiro, também foram condenados. Lula afirmou que se sentiu “traído” e que não sabia de nada. A Câmara cassou mandatos, o STF condenou 24 réus, mas anos depois a maioria já estava em liberdade.
Antes mesmo do Mensalão, o caso Waldomiro Diniz (2004) já mostrava o método: o assessor de Dirceu era filmado pedindo propina a Carlinhos Cachoeira em troca de favores em loterias. O vídeo, gravado em 2002, só veio a público depois.
A Lava Jato e o Petrolão
A Operação Lava Jato, deflagrada em 2014, revelou o maior esquema de corrupção já investigado no país. Empreiteiras formavam cartel, superfaturavam contratos com a Petrobras e pagavam propinas bilionárias a políticos, partidos e executivos. O PT teve papel central na distribuição de cargos e no recebimento de recursos. Lula foi condenado em primeira e segunda instâncias nos casos do triplex do Guarujá e do sítio de Atibaia, acusado de receber vantagens disfarçadas de reformas e imóveis. Cumpriu 580 dias de prisão.
Em 2021, o STF anulou as condenações por questões de competência territorial e parcialidade do juiz Sérgio Moro. Os processos foram remetidos a Brasília e acabaram prescritos ou arquivados. Lula recuperou os direitos políticos e voltou à Presidência em 2023. A anulação foi processual, não de mérito. A operação recuperou bilhões, mas também gerou controvérsias sobre excessos e seletividade.
Outros capítulos
- 2006: Escândalo dos Aloprados — assessores petistas presos com R$ 1,7 milhão em dinheiro vivo destinado a comprar um dossiê contra adversários.
- 2006–2011: Quedas sucessivas de ministros sob Dilma (Palocci, Alfredo Nascimento, Wagner Rossi, Orlando Silva e outros) por irregularidades, propinas e superfaturamento.
- Bancoop, cartões corporativos, Refinaria Abreu e Lima, caso Erenice Guerra — todos revelando o mesmo padrão de desvio e tráfico de influência.
- Pedaladas fiscais: manobra contábil que ajudou a justificar o impeachment de Dilma em 2016.
O retorno ao poder e a continuidade
Com Lula de volta em 2023, o aparelhamento de estatais e órgãos públicos voltou à pauta. Em 2025, a fraude no INSS — descontos indevidos em aposentadorias e pensões estimados em R$ 6,3 bilhões — colocou sob investigação o sindicato que tem como vice-presidente o irmão de Lula, Frei Chico. O filho do presidente, Fábio Luís (“Lulinha”), passou a ser investigado por tráfico de influência e possíveis ligações com intermediários do esquema. O Banco Master, liquidado em meio a suspeitas de irregularidades e pagamentos a políticos de vários partidos, atingiu aliados próximos do governo, incluindo o líder do PT no Senado, Jaques Wagner.
A marca da impunidade
O traço mais grave da corrupção brasileira não é só o roubo. É a impunidade seletiva. Condenados a dezenas ou centenas de anos (como Sérgio Cabral, do MDB) acabam em liberdade. Processos são anulados por vícios processuais. Delações são desacreditadas. O STF, que deveria ser a última trincheira da legalidade, tornou-se, em vários episódios, o instrumento que devolveu o direito de ir e vir a protagonistas de grandes esquemas.
O PT não detém o monopólio da corrupção. Outros partidos e governos também acumularam seus próprios escândalos. Mas o partido que chegou ao poder prometendo moralidade transformou a máquina pública em instrumento de financiamento político e enriquecimento de aliados em escala industrial. A “Era da Ladroagem” não é exclusividade petista — é a expressão mais visível de um sistema em que o poder, qualquer que seja o partido, continua a corromper. Enquanto a impunidade for a regra e a responsabilização a exceção, o ciclo se repete.