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A corrupção que não dorme
A corrupção que não dorme

A corrupção que não dorme: quando o filho do presidente e o “Careca do INSS” batem à porta do Ministério da Saúde

O Brasil não precisa de mais um escândalo para lembrar que a corrupção é um câncer metastático. Precisa, sim, de honestidade intelectual para olhar de frente o que as investigações da Polícia Federal e depoimentos de delatores estão revelando em 2025 e 2026: a tentativa de transformar o Ministério da Saúde em plataforma de negócios privados, com a participação alegada de Fábio Luiz Lula da Silva (o Lulinha), do lobista Antônio Carlos Camilo Antunes (o “Careca do INSS”) e de operadores históricos do petismo como Swedenberger Barbosa (Berge) e Marco Aurélio Ribeiro (Marcola).

Segundo depoimentos prestados à PF e reportados por veículos como CNN, VEJA, Gazeta do Povo e outros, o Careca do INSS — apontado como um dos principais operadores do esquema bilionário de descontos irregulares em aposentadorias e pensões que pode ter chegado a R$ 6 bilhões — teria usado canais privilegiados para tentar emplacar contratos milionários na Saúde. Os alvos incluíam medicamentos à base de canabidiol e, em outra frente, testes rápidos de dengue e zika com valores na casa do bilhão. O delator Edson Claro, ex-diretor comercial de empresa ligada a Antunes, relatou ter ouvido do próprio Careca que Lulinha receberia comissão de R$ 25 milhões por viabilizar um desses negócios e que haveria mesadas de cerca de R$ 300 mil, intermediadas por lobistas como Roberta Luchsinger.

Berge, então secretário-executivo da pasta (na prática, o número 2), e Marcola, ex-chefe do Gabinete Pessoal de Lula, são citados como quem “abria portas”. Mensagens e reuniões documentadas mostram funcionários do Careca agendando encontros e preparando minutas de termos de referência. O dinheiro que alimentava parte dessa estrutura, segundo as apurações da Operação Sem Desconto, vinha do bolso de milhões de aposentados e pensionistas — pessoas que sobrevivem com benefícios minguados e viram seus contracheques sangrarem em descontos associativos fraudulentos.

A defesa de Lulinha nega qualquer recebimento de mesada ou comissão e afirma que viagens (algumas pagas pelo Careca) ocorreram em contexto social ou de interesse legítimo em cannabis medicinal, sem negócios fechados. Quebras de sigilo bancário divulgadas não teriam mostrado repasses diretos. Roberta Luchsinger e outros envolvidos apresentam versões de consultorias regulares. Tudo ainda está sob investigação. Ninguém foi condenado neste capítulo específico. Mas o padrão é antigo e doentio: parentes de poderosos circulando em zonas de influência, lobistas ostentando “acesso” e estruturas de governo que, em vez de proteger o interesse público, parecem receptivas a quem chega com o nome certo.

Isso não é “perseguição”. É a continuidade de uma cultura política em que o Estado é tratado como extensão do patrimônio familiar e partidário. O mesmo Brasil que já viu mensalão, petrolão, orçamento secreto e mil esquemas menores agora assiste a um lobista de desvios previdenciários tentando transformar o SUS em cliente de produtos de cannabis e kits de dengue, com menção explícita ao filho do presidente da República. Quando o dinheiro que deveria garantir remédios, testes e atendimento básico é disputado por intermediários que pagam (ou prometem pagar) mesadas e comissões, o custo real é pago pelos mais vulneráveis: idosos, doentes e quem depende da saúde pública.

A crítica precisa ser sistêmica. Corrupção não é monopólio de um partido. Ela floresce onde há concentração de poder, opacidade e impunidade. Mas fingir que a proximidade com o núcleo do Planalto e a recorrência de nomes petistas históricos nesses relatos são irrelevantes é desonestidade. O povo brasileiro já pagou caro demais por essa lógica. Exigir que as investigações avancem sem blindagem, que as contas sejam prestadas e que o Ministério da Saúde deixe de ser corredor de negócios privados não é oposição ideológica. É o mínimo de dignidade pública.

Enquanto delatores descrevem mesadas e portas abertas, milhões de brasileiros enfrentam filas, falta de remédio e aposentadorias roubadas. A corrupção brasileira não é abstrata. Tem nome, tem sobrenome, tem intermediários e tem vítimas concretas. E enquanto o sistema continuar protegendo quem se aproxima do poder, ela continuará se reproduzindo — com ou sem canabidiol no cardápio.

Purifique se de todos os preconceitos que te amontoaram em tua mente; despojado das tuas ideias enganadoras, de suas raízes, malignas.