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9,7 bilhões para pedir seu voto
9,7 bilhões para pedir seu voto

 9,7 bilhões para pedir seu voto

 3 de outubro de 2026, véspera do primeiro turno Na véspera da eleição, a conta chegou antes do resultado: os candidatos já passaram de R$ 9,7 bilhões em gastos de campanha, segundo levantamento divulgado pela coluna de Cláudio Humberto. É dinheiro suficiente para fazer qualquer cidadão desconfiar de que o objetivo central do sistema não é informar o eleitor, e sim disputar a atenção dele a peso de ouro. ## O dinheiro que muda de mão antes de chegar ao eleitor O primeiro número que chama atenção é também o mais revelador: R$ 5,4 bilhões, mais da metade do total, correspondem a transferências de partidos para diretórios ou candidatos. Isso não é propaganda; é logística financeira interna. Antes de virar santinho, jingle ou anúncio, o dinheiro percorre um circuito de repasses cuja lógica o eleitor raramente enxerga e que a prestação de contas, por mais que exista, nem sempre torna legível para quem não é contador. Vale uma ressalva de honestidade intelectual: quando um mesmo real é repassado e depois gasto, ele pode aparecer mais de uma vez nas estatísticas. O total de R$ 9,7 bilhões, portanto, deve ser lido com cuidado e não como a soma exata do que foi efetivamente pago a fornecedores. Mas essa própria dificuldade de leitura é parte do problema. Um sistema que gasta bilhões e não consegue explicar, de forma simples, para onde foram os bilhões tem um déficit de transparência que independe da cifra final.  O papel que ninguém pediu Do que sobra, uma parte generosa foi para o que o eleitor mais vê e menos agradece. Materiais impressos, os famosos santinhos que cobrem calçadas e ruas em toda eleição, consumiram R$ 765,9 milhões. Outros R$ 663,6 milhões foram para serviços de terceiros, categoria vaga o suficiente para abrigar quase qualquer coisa. E a chamada militância e mobilização de rua custou R$ 516.859.588,10, mais de meio bilhão de reais para que pessoas distribuam papel e acenem com bandeiras. Somando apenas essas três rubricas, chega-se a cerca de R$ 1,95 bilhão. É o preço de um modelo de campanha que ainda trata o eleitor como alvo de panfletagem, enquanto a maior parte do debate real acontece na tela do celular. Gasta-se muito com o método mais antigo de convencer e, ao mesmo tempo, muito com o mais novo, sem que nenhum dos dois ofereça ao cidadão algo parecido com um programa de governo compreensível.  A nova "gráfica" é uma big tech O dado mais simbólico talvez seja o do fornecedor campeão: o Facebook foi quem mais faturou com a eleição, mais de R$ 236,7 milhões, e ainda estamos no primeiro turno. A plataforma, que vende a atenção dos usuários em leilão, tornou-se a grande beneficiária de uma disputa em que, em tese, o protagonista deveria ser o debate público. Há ainda a questão do poder de quem vende o espaço. Quem compra anúncio de uma empresa privada estrangeira depende das regras, dos algoritmos e dos critérios de segmentação daquela empresa, e o eleitor vê apenas o resultado final, sem saber por que foi escolhido como público-alvo de determinada mensagem. Parte do dinheiro que sai do sistema político brasileiro, e que em boa medida se origina de fundos públicos, termina como receita de uma corporação global.  Os campeões do gasto digital O ranking de quem mais investiu em redes sociais mostra que o fenômeno não tem coloração única. Flávio Bolsonaro (PL) aparece no topo, com R$ 4,95 milhões registrados. Lula (PT) vem em segundo, com R$ 2,59 milhões. Fernando Haddad (PT), candidato ao governo de São Paulo, completa o pódio com R$ 2.539.890,00. O dado merece atenção por dois motivos. O primeiro é que o gasto de Flávio Bolsonaro é quase o dobro do de Lula, o que mostra como a disputa digital não depende apenas de quem tem mais estrutura partidária. O segundo, e mais importante, é que a corrida por visibilidade paga atravessa o espectro político: direita e esquerda se comportam do mesmo modo diante do mesmo incentivo. Quem se irrita com o gasto do adversário deveria olhar também para o do próprio campo.  O que o eleitor ganha com tudo isso A pergunta que fica é simples e incômoda: o que o eleitor ganha com tantos bilhões? Não parece haver correlação evidente entre o volume de dinheiro investido em propaganda e a qualidade da informação que chega a quem vai votar. Santinho não é programa de governo. Impulsionamento não é debate. Mobilização paga não é engajamento cívico. O sistema, tal como está, premia quem tem acesso a mais recursos e a melhores operadores de marketing, e não necessariamente quem tem as melhores propostas. Cria uma barreira de entrada para candidatos sem estrutura e transforma a disputa em corrida de orçamentos. E o custo, em boa parte, é coletivo, já que parcela relevante desse dinheiro vem de recursos públicos, e não do bolso dos candidatos. Três perguntas para depois da eleição Passada a votação, o Congresso e a Justiça Eleitoral deveriam responder a algumas questões que o eleitor tem direito de fazer: 1. Por que as transferências entre partidos e candidatos não são apresentadas de forma mais clara? Prestação de contas que só é compreensível para especialistas não cumpre sua função democrática. 2. Há justificativa para tanto gasto com material impresso em um país que já faz campanha por celular? O desperdício e a sujeira urbana são efeitos concretos, que recaem sobre as cidades. 3. Que limites, se algum, devem existir para o gasto com plataformas privadas? Um mercado de atenção que fatura centenas de milhões em um único ciclo eleitoral merece escrutínio específico. Enquanto isso não acontece, resta ao eleitor o dever de fazer o que o dinheiro não faz por ele: buscar propostas, comparar históricos e desconfiar de quem gasta muito para dizer pouco. Nota: os números citados neste artigo foram extraídos de coluna publicada em 3 de outubro de 2026 e não foram verificados de forma independente. Os valores finais constam das prestações de contas apresentadas à Justiça Eleitoral.

Purifique se de todos os preconceitos que te amontoaram em tua mente; despojado das tuas ideias enganadoras, de suas raízes, malignas.